É grave a situação da saúde mental ou psicológica dos militares estaduais da Brigada Militar e em decorrência disso a corporação registra a mais alta incidência de suicídio entre as forças estaduais do Brasil. O pior é que não existe nenhuma iniciativa política para corrigir essa situação terrível e até mesmo o Decreto 41.519, de 2 de abril de 2002, que dispõe sobre a saúde mental dos servidores da segurança pública, está praticamente esquecido. Os militares estaduais de nível médio, em razão do serviço de policiamento ostensivo e dos serviços de bombeiros, estão diretamente expostos à violência e aos seus efeitos negativos que corroem a estrutura psicológica desses profissionais. Os militares da Brigada Militar são treinados para assegurar a ordem pública e a incolumidade vital e material da pessoas e para tanto eles diariamente enfrentam situações extremas de violência e destruições de ordem natural e humana que o homem comum não suportaria uma semana. No entanto, a despeito dessa grande exposição à violência o militar estadual não é acompanhado na mesma proporção na sua saúde mental que mantenha o seu equilíbrio emocional e psicológico. Essa deficiência está na raiz do alto índice de alcoolismo e de suicídio entre os militares estaduais da força gaúcha.
São vários os fatores que determinam a alta incidência de suicídio entre os brigadianos que podem ser classificados de internos e externos: no plano interno, o estresse profissional permanente em decorrência dos fustigamentos diários de PADs, assédio moral, péssimos salários e excesso de trabalho; no plano externo a violência das ruas, não obstante o perigo permanente e nefasto de estarem sempre sob ameaça de inquéritos quando no confronto com bandidos, além do alto risco da sua própria vida. Na maioria das polícias do mundo os seus membros, em razão do alto estresse oriundo da sua profissão, recebem acompanhamento psicológico, principalmente depois de confronto violento com bandidos. Mas não é o que está acontecendo na Brigada Militar onde os seus militares de nível médio estão jogados a sua própria sorte. O sociólogo francês Emile Durkheim identificou três tipos de suicídio: o egoista, o altruista e o anômico. Segundo Durkheim, os três tipos incidem de uma maneira ou de outra sobre os fracos laços sociais, daí que quanto mais forte for os laços sociais de uma comunidade mais imune ela estará ao suicídio. Então tem alguma coisa grave acontecendo na Brigada Militar, pois gaba-se aos quatro ventos os fortes laços sociais existente na corporação. Em suma, o alto índice de suicídio e de alcoolismo na milícia gaúcha é consequência anômica dos péssimos salários, sobrecarga de trabalho, frustração na carreira sem perspectiva de ascendência, treinamento insuficiente, pressão interna, estresse derivado da atividade de policiamento ostensivo e principalmente a sensação de abandono devido a falta de uma política de saúde psicológica para os profissionais da força. Somente um programa ou política que envolva as condições salariais, profissionais e de trabalho pode reverter essa situação terrível que vem devastando as fileiras da Brigada Militar.
Romeu Karnikowski
Doutor em Sociologia