
Com o fracasso das negociações e o aumento da sensação de insegurança nas ruas de Salvador e outras cidades baianas, policiais militares em greve aproveitam a proximidade da maior festa popular brasileira para pressionar o governo a conceder aumento salarial
Mais de uma dezena de blindados do Exército cercam todos os acessos ao Palácio da Assembleia Legislativa em Salvador e 1.038 militares das Forças Armadas acampam em tendas no local. Tudo para evitar que os líderes da maior greve da história da Polícia Militar da Bahia consigam fugir. No oitavo dia de paralisação, ontem, mais de 500 PMs se concentravam na sede do Legislativo e prometiam resistir no prédio, invadido na madrugada de segunda-feira. A 50 metros do prédio, é possível ouvir os cânticos dos policiais: “a PM parou, o Carnaval acabou, ô ô ô”.
Não são só os festejos que estão ameaçados na pátria do Carnaval de rua. A paralisação provocou uma onda de violência sem precedentes na Bahia, com disparada no número de homicídios e de saques a estabelecimentos comerciais. Ao anoitecer de ontem já eram contabilizados 120 assassinatos desde o início da greve. Como os PMs cruzaram os braços, cabe ao Exército e à Força Nacional de Segurança Pública patrulhar as ruas de Salvador. O Pelourinho, o Jardim de Alá e os principais terminais de transbordo de ônibus da capital baiana foram ocupados pelos militares das Forças Armadas. Nem isso conseguiu impedir saques generalizados. No bairro Pernaúbas, homens mascarados obrigaram o comércio a fechar as portas, sob ameaça de depredação. Em Periperi, no subúrbio, cartazes foram colados nos muros, ordenando que as lojas e bares não abrissem.
O Aeroporto Internacional de Salvador – Deputado Luís Eduardo Magalhães está com baixíssimo movimento – uma anomalia, quando se está a 10 dias do Carnaval.
Líder de policiais grevistas é preso
O dia até que começou com jeito de que a greve poderia definhar. À tarde, representantes do governo do Estado e de entidades sindicais dos PMs se reuniram na residência episcopal do arcebispo de Salvador, o catarinense dom Murilo Krieger. Mas a negociação fracassou quando os grevistas souberam da prisão de um de seus líderes, o sargento Elias Santana, que estava com prisão preventiva decretada pela Justiça (com outros 11 PMs) .
Os policiais exigem salários acima de R$ 2,3 mil, que é o que recebem hoje. O governador promete que sim, mas para 2013. De acordo com o comandante-geral da PM do Estado, coronel Alfredo Castro, não há possibilidade de a greve atrapalhar a festa popular, tida como a maior do mundo.
– Teremos um Carnaval tranquilo, como tem sido a festa nos últimos anos, com a Polícia Militar atuando nas ruas. Não há razão para acreditar em outra possibilidade – afirma.
Segundo o governador Jaques Wagner, não houve nenhuma modificação no planejamento da festa.
– Vamos iniciar o transporte dos policiais do interior para a capital, ação que dá início à Operação Carnaval, no dia 14. Entre logística e pagamento de adicionais pela atuação na festa, o Estado vai investir R$ 30 milhões.
Ontem, como gesto de boa vontade, Wagner autorizou que a energia e a água da Assembleia fossem religados. Mas o que os grevistas mais querem, no momento, está na mão da Justiça: a revogação dos mandados de prisões dos 12 líderes do movimento.
*Com agências
HUMBERTO TREZZI* | ENVIADO ESPECIAL/SALVADOR
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A cronologia da greve

O receio do efeito dominó
O governo federal está atento aos desdobramentos da greve na Bahia. A preocupação é que o movimento provoque um efeito dominó em outros Estados. A presidente Dilma Rousseff já informou ao governador Jaques Wagner que, se ele precisar, terá reforços das tropas do Exército, da Polícia Federal e da Força Nacional de Segurança Pública, enviadas à Bahia para conter o movimento grevista da PM.
No Palácio do Planalto, existe ainda o receio de que políticos comecem a levar aos quartéis das PMs Brasil afora a pregação a favor da votação da PEC 300 – a proposta de emenda constitucional que prevê piso salarial único para PMs e bombeiros. Tanto é que o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), apressou-se ontem a dizer que a greve na Bahia não tem nada a ver com a emenda.
– É preciso entender que a melhoria da segurança pública está muito além de uma questão salarial. Não dá para fazer greve de arma na mão – afirmou o parlamentar.
Polícia Civil é o foco da preocupação do Piratini
O período mais turbulento na Segurança Pública do Rio Grande do Sul já se dissipou, com o fim de uma série de protestos incendiários atribuídos a PMs insatisfeitos com seus salários. Agora, são os agentes da Polícia Civil que pressionam por reajuste. Ontem, teve início uma operação-padrão no Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) – que tem por objetivo tornar mais lentos as investigações policiais e o andamento de processos. O governador Tarso Genro prometeu apresentar nova proposta para a categoria até o fim do mês.
– Não percam a cabeça no movimento. É fácil entrar numa greve, mas é muito difícil sair – disse Tarso, após protesto de servidores em frente ao Palácio da Polícia.
A operação deve se estender até 7 de março, quando está marcada uma assembleia-geral, que pode decidir pela greve.
– Não estamos trabalhando para que ocorra o mesmo que está acontecendo na Bahia, mas também não podemos deixar de reivindicar nossos direitos – disse o presidente do Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Policia do Rio Grande do Sul (Ugeirm), Isaac Ortiz.
Esta foi a última categoria da Segurança a se rebelar. Primeiro foram os policiais militares, que no ano passado realizaram uma série de protestos, entre eles, a queima de pneus em rodovias. No final de 2011, foi a vez dos delegados de polícia clamarem por melhores vencimentos. Chegaram a anunciar um possível boicote à Operação Verão, com prejuízos aos trabalhos no Litoral. A categoria votou a favor da proposta de aumento salarial diferenciado para cada uma das quatro classes, pago de forma gradual entre 2013 e 2018.
– Depois de aprovado o aumento dos delegados, surgiu um abismo entre os nossos salários. Por isso, decidimos fazer apenas o que nos compete, o que está previsto em lei ser a nossa função – diz Ortiz.
Pela proposta do governo, o salário dos agentes passaria para R$ 3,7 mil em 2018. A categoria esperava R$ 8,3 mil.

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